Vamos fazer uma conta simples, daquelas que até político entende – ou finge que não entende.
Em 2025, o povo de Alenquer, essa máquina de gerar riqueza perdida no Pará, realizou uma pequena façanha: trabalhou, vendeu, comprou, faturou e, no processo, alimentou os cofres públicos com a bonita soma de R$ 610 milhões em impostos.
Para chegar a essa cifra suada, pegamos o sangue da economia do município – os R$ 1,85 bilhão do PIB – e aplicamos a sangria padrão do Estado brasileiro: 34%. Traduzindo para o ritmo do suor alenquerense, foi como se, a cada dia útil do ano, R$ 1,65 milhão escorresse dos bolsos de professores, comerciantes, pedreiros, servidores, e até dos que mal têm o que comer, direto para os porões sem fundo da máquina pública federal, estadual e municipal.
É um fluxo impressionante. Um rio de dinheiro jorrando diariamente de Alenquer para bancar o que quer que seja que esse monstro faminto decida bancar.
Agora, segure sua ironia.
No último dezembro, enquanto esse rio jorrava seu milhão e seiscentos por dia, eis que desce do Olimpo brasiliense um ou dois ilustres deputados. Eles trazem uma notícia que, na cabeça deles, deve soar como a chegada do Messias: “Liberamos UM milhão de reais em emenda parlamentar para Alenquer!”.
Pausa dramática para o espanto.
O cara chega de jet político, com a pompa de quem está devolvendo um tesouro, para entregar… menos do que a cidade paga em impostos em UM ÚNICO DIA. É o ápice da arte do desconto misericordioso: a cidade paga R$ 1,65 milhão diariamente e, no fim do ano, recebe de volta a esmola de R$ 1 milhão, com direito a cobrança de festa, aplausos e elogios.
É a versão cínica daquele velho golpe do camelô: “Pague dez, leve um de volta e agradeça pelo privilégio!”
Que negócio redondo para o Estado, não? Ele suga, com a frieza de uma bomba de combustível, mais de um milhão e meio por dia de uma comunidade. Depois, fragmenta esse dinheiro num emaranhado de siglas, repasses e ministérios, e o devolve gota a gota, como favor político, mediante corte de fitas e sorrisos para a câmera. E ainda espera gratidão.
Pois fique claro, aos ilustres visitantes e a toda a classe que acha que governa de costas viradas: o povo de Alenquer não é besta. Tem calculadora, tem consciência e, acima de tudo, sente no bolso o vazio diário de R$ 1,65 milhão. Sabe perfeitamente que a “benesse” de um milhão é, na realidade, um troco ridículo – e um troco que, em tese, já era deles.
Portanto, senhores deputados, guardem os fogos de artifício e os discursos salvacionistas. A conta está feita. E ela não fecha a seu favor. Alenquer não pede esmolas. Exige, no mínimo, o retorno digno e proporcional da fortuna que já entrega todos os dias. O resto não é política: é piada de mau gosto.

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